A Nova Estética na Fotografia Post Mortem Encanta pela Beleza e Desfaz a Sombra de Fantasmas.

O aspecto afetivo é fundamental para compreender a estética da fotografia Post Mortem, também conhecida como retrato memorial ou retrato de luto. Trata-se da prática de fotografar recém-falecidos.

“I see dead people” ou “Eu vejo pessoas mortas” frase que marcou o mundo assombrado do filme Sexto Sentido (1999) dita de forma sussurrante por Cole Sear, personagem que possuía o dom de ver e andar com os mortos, ilustra o que se vê:

The mamy and dead child

Quando as pessoas veem retratos fotográficos post-mortem pela primeira vez, elas frequentemente entendem esse ritual como um desvio das respostas normativas modernas à morte devido ao desconforto que essas fotografias provocam.

1. Origem

Advinda da cultura americana e europeia no século XIX e do início do século XX, sobretudo nos anos de 1930 e 1940, o hábito abrangeu também Reino Unido, Irlanda, Canadá, Islândia.

As primeiras fotografias post-mortem desenvolveram uma estética para contemplação do luto ao suprimir evidências dos aspectos desagradáveis da morte e sugerindo um estado mais familiar. Os retratos post mortem tinham a intenção de aliviar a dor da perda e trazer consolo e conforto para os enlutados.

Sobrevivendo ao tempo, fotografias revelam como esta intenção influenciou todos os aspectos do retrato incluindo o, tratamento do rosto, a pose e iluminação do corpo, a escolha de fundo e acessórios. Close-ups do rosto ou fotos de corpo inteiro raramente incluíam o caixão. As crianças eram frequentemente mostradas em repouso em um sofá ou em um berço, às vezes posadas com o brinquedo favorito ou outros brinquedos. Não era incomum fotografar crianças falecidas com um membro da família, irmãos, avós e a própria mãe.

Dead child photo with family

O pequeno número de artigos dedicados ao assunto na imprensa fotográfica confirma que a estética da foto após a morte envolve quatro aspectos:
• O artista (fotógrafo)
• A audiência (os parentes)
• O universo (o contexto sociocultural background da imagem)
• A pessoa (o ente falecido)ucesso.

Vailati (2016) relata imagens do cortejo e funerais de anjinhos no Brasil do século XIX, vestidos com mortalhas brancas ou vestes de santos, refletindo inocência, pureza, em meio a flores, ramalhetes. Desse modo, flores de todos os tipos em arranjos e coroas faziam parte de um suporte comum na fotografia post-mortem.

A materialidade das fotografias tiradas após a morte é principalmente a sua habilidade de consolar condutor da memória por meio de uma demanda de engajamento tátil. Quando tocamos a fotografia de uma pessoa, tocamos em um traço de sua presença. Dessa forma, podiam ser seguradas, posto que era uma fotografia pequena, que substituía a imagem do bebê e evocava desejo similar de abraçar e proteger a quem se estava vendo.

2. Fotógrafos de pessoas mortas

Em tempos passados, os fotógrafos contratados passariam algumas horas na companhia da família enquanto tirava uma foto. O envolvimento emocional com a família da menina morta ou do menino era frequente, pois os mortos não se fazem bonitos, mas necessitam ser vistos pelos olhos daqueles que os amam.

Hoje, a fotografia post-mortem é mais comum nos contextos de trabalho policial e patológico. Há ainda imagens veiculadas na mídia impressa, e redes sociais, em que o que se vê, na maior parte das vezes, é um espetáculo da violência, por meio do consumo das informações de morte, assassinatos, violência e acidentes como entretenimento em páginas dedicadas no Facebook e grupos do WhatsApp.

3. A nova estética da fotografia post mortem

Contudo, na última década, empresa com ou sem fins lucrativos começaram a promover mais uma vez a prática da fotografia pós-morte na América do Norte e Canadá.

O ritual foi como “fotografia de lembrança”, fornecendo o serviço exclusivamente aos pais de luto por um natimorto. Favorecendo o costume terapêutico, essas fotos realmente têm um impacto significativo na experiência de quem observa as imagens..

Muito diferente da estética e imagens dos séculos passados, trata-se agora de revelar uma delicada estética intimista, que favorece a conexão sensível entre mãe e filho, avós e netos, ao invés de privilegiar o background ou a audiência.

A visão de Barthes em Camera Lucida traz a ampla conclusão de que cada fotografia contém o sinal de sua morte e que a essência da fotografia é a mensagem implícita daquilo que, “saudosamente” se foi.

Referências:
Bell, B. (2016, 6 de junho). A perturbadora arte de fotografar mortos. BBC News. Recuperado de https://www.bbc.com/portuguese/geral-36461785.
Bown, N. (2009). Empty hands and precious pictures: post-mortem portrait photographs of children. Australasian Journal of Victorian Studies, 14(2), 8-24.
Cluff, T. (2014). Peaceful ironies: the history and aesthetics of postmortem photography in Quebec and Ontario (19th and 20th Centuries). Spectrum Research Repository.
Death in the photograph. (23 de agosto 1981) The New York Times. https://www.nytimes.com/1981/08/23/books/death-in-the-photograph.html
Linkman, A. (2006). Taken from life: post-mortem portraiture in Britain 1860–1910. History of photography, 30(4), 309-347.
Sangalli, H. (2017). A morte na territorialidade digital: espetáculo, consumo e gestão do medo nas redes sociais (Master’s thesis). Recuperado de http://www.comunicacaosocial.ufes.br/pos-graduacao/POSCOM/detalhes-da-tese?id=11034
Supe, A. (2003). Ethical considerations in medical photography. Issues Med Ethics, 11(3), 83-84.
Publicado por: Cacau Freire
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