IA e a automatização da estética e da arte

Todos os aplicativos de imagem podem automaticamente modificar fotos tiradas pelos usuários de acordo com as normas da “boa fotografia”.

Na visão original, do início dos anos 1950, a inteligência artificial (IA) tinha como meta ensinar computadores a realizar um conjunto de tarefas que exigia raciocínio, ou seja, tarefas de cunho cognitivo; entre elas: jogar xadrez, solucionar problemas matemáticos, etc.

Atualmente, a IA (sobretudo na forma de aprendizagem supervisionada de máquinas) transformou-se em um elemento chave utilizado pela economia contemporânea, tornando-a mais eficiente e segura: ao avaliar decisões a respeito do crédito aos consumidores, filtrar candidatos a vagas de empregos, detectar fraudes, etc.

O que não tem sido tão óbvio, atualmente, é o fato de que a IA também passou a representar um importante papel em nossa vida cultural, automatizando cada vez mais o mundo da estética e da arte.

1. Aplicativos e a Cultura de Imagem

Considere, por exemplo, a cultura de imagem. O Instagram recomenda imagens e vídeos com base naquilo que gostamos. Artsy.net recomenda obras de arte semelhante ao que estamos visualizando no site.

Todos os aplicativos de imagem podem automaticamente modificar fotos tiradas pelos usuários de acordo com as normas da “boa fotografia”. Outros aplicativos “embelezam” selfies. Há, ainda, aplicativos que automaticamente editam vídeos de usuários criando filmes curtos de acordo com vários estilos.

O aplicativo The Roll from EyeEm classifica automaticamente as fotos dos usuários de acordo com a qualidade estética. O software EyeEm automaticamente aprendeu estilos diferentes de classificação feita por curadores de fotos usando apenas 20 fotos como referência para buscar e identificar imagens semelhantes em sua vasta coleção. Quando você faz upload de suas fotos para vender utilizando o aplicativo EyeEm, o software automaticamente classifica as palavras-chave para a sua imagem.

1. Exemplos de fotografias utilizadas para treinar o sistema estético de ranking do EyeEm.
Fonte: AppuShaji, “Personalized Aesthetics: Recording the Visual Mind using Machine Learning,”

 

O Google projetou um sistema que imita as habilidades de um fotógrafo profissional tais como: selecionar uma foto adequada para edição, cortar, aplicar filtros e assim por diante. Para além da cultura de imagem, as aplicações da IA vão desde recomendações de música no Spotfy, iTunes e outros serviços até a geração de personagens e ambientes para videogames, e estilos de moda.

 

2. Rede neural criada pelo Google que aprendeu a aplicar automaticamente filtros de máscaras a novas fotos após ter sido treinado através de 15 mil imagens profissionais de paisagens.À esquerda: fotos originais. No centro: filtro de mascara utilizado. À direita: fotos com filtro. Fonte: Hui Fang and Meng Zhang.(2017) “Creatism: a deep-learning photographer capable of creating professional work

2. Questões envolvendo Inteligência Artificial e a Fotografia

O que devemos nos perguntar é: será que, daqui há alguns anos, a automação será capaz de causar uma redução na diversidade cultural da humanidade? Por exemplo, será que as edições automáticas aplicadas às fotos de usuários levarão a uma padronização do que pode ser considerada uma “foto criativa”?

Ao contrário de adivinhar ou apenas seguir intuições não fundamentadas, será possível aplicar os métodos de IA a um grande número de dados culturais para medir, quantitativamente, a diversidade e variabilidade na cultura contemporânea, rastreando o modo como estão mudando no decorrer do tempo.

Autor: Lev Manovich
Tradução livre de: Lev Manovich (2017). Automating aesthetics: artificial intelligence and image culture, Flash Art International nº 316, September–October.
Versão completa traduzida para o português