Definitivamente há pessoas que não se encaixam no nosso padrão de beleza

E parece que a maioria dos fotógrafos concorda que ter um modelo ou pessoa bonita é a chave para tirar boas fotos. Mas isso nem sempre é verdade

Onde está a beleza?

A fotógrafa Jennifer Mckendrick fez sucesso certa vez. Especializada em fotos de casamentos, noivados e família, ela se recusou a fotografar algumas de suas clientes porque as viu fazendo bulling com um grupo estudantes no Facebook.

Jennifer escreveu no seu próprio blog que não tiraria mais fotos de pessoas feias, pois: “Se você é feia por dentro, então me desculpe, mas eu não vou fazer você parecer bonita por fora!”

Uma multidão apoiou a atitude da fotógrafa com comentários no blog da autora e nas redes sociais. E você? Cancelaria uma sessão de fotos porque o seu cliente é “feio por dentro?”

Human Faces Exposition

Photo by Geralt on Pixabay

Oh, mundo injusto!

Você pode pensar que as pessoas não podem ser classificadas pela aparência – que a beleza está nos olhos de quem vê.

Esse aforismo pode até ser verdade, mas só quando você está rodeado por um grupo de pessoas bonitas e pergunta: “Afinal, quem é a pessoa mais bonita?” É provável que as respostas sejam diferentes, contudo todas serão baseadas diferentes tipos de beleza.

Essa é a opinião do jornalista Gray Matter, ao comentar a obra Beauty Pays: why attractive people are more successful (2013) A Beleza Paga: porquê pessoas atraentes são mais bem-sucedidas do professor de economia Daniel S. Hamermesh, da Universidade do Texas, Austin.

Após uma extensa pesquisa, o professor comenta que a beleza é mais que uma simples questão para homens e mulheres. Ela afeta os rendimentos pessoais e a dinâmica mercado de trabalho.

Professor Daneial S. Hamermesh

Pesquisas mostram que a aparência das mulheres tem um grande impacto no mercado e que a aparência dos homens tem um grande impacto sobre o tipo de trabalho que exercem.

Por que esse disparate em relação ao visual em tantas áreas da vida? Para o jornalista, trata-se de uma simples questão de prejuízo. Grande parte das pessoas, independente da atitude, prefere comprar de pessoas bonitas, ouvir advogados bonitos, ser liderada por um político que tenha boa aparência, enquanto estudantes preferem aprender com professores bonitos.

Essa não é uma simples questão de atitude de patrões cruéis que se recusam a empregar pessoas feitas. Ao nosso redor, como funcionários, clientes e potenciais amantes somos todos responsáveis por esses efeitos sobre a beleza e as demais pessoas.

Como podemos remediar essa injustiça? Algumas jurisdições da Califórnia e no Distrito de Columbia EUA protegem os cidadãos que sofrem tratamento diferenciado baseado na aparência. Dessa forma, a “feiura” pode ser protegida nos EUA.

Mas e quem é “muito feio”?

A feiura não é um tipo de atributo que as pessoas escolhem abraçar e muitos não querem admitir que são mesmo feios.

Ugly people together

Modelos e celebridades ainda são consideradas um referencial de beleza para a sociedade. Contudo, o padrão de beleza tem se tornado inconclusivo. Isso faz com que novos rostos despontem e chamem a atenção por serem diferentes.

De acordo com a jornalista inglesa Jessica Clark, comentarista de moda, o ideal de beleza permaneceu vergonhosamente homogêneo por um longo tempo, mas é justo dizer que há uma nova natureza em andamento.

Two girls looking at the camera

Photos by JC Gelidon and Gabriel Silvério on Unsplash

As tendências atuais de moda e beleza demonstram uma busca, sem precedentes, pela diversidade de rostos que reflitam melhor a complexidade e as nuances do mundo real, onde o interesse e a autenticidade superam a perfeição.

A autora Laura Miller comenta o fenômeno chamado Bad girl photography, em que as meninas postam fotos nas redes sociais do tipo de “quem não está nem aí” para a beleza e para o bom comportamento! Essa é uma forma de intervenção criativa na cultura padrão de representação do que seria considerado bom, belo e adequado na construção da boa imagem de “garotas” japonesas.

Woman posing like zoobie

Photo by Alex Iby on Unsplash

Da mesma opinião, a fotógrafa de beleza Felicity Ingram capta esse novo tom em seu trabalho, e diz que a face certa é a face de alguém capaz de despertar o apelo pelo caráter mais que pela simetria.

“Eu cansei de clientes e revistas me dizendo que não conseguiam fotografar certas garotas porque não eram modelos de ‘beleza’. Pessoalmente, acho que esta ideia é muito antiga. Estou mais interessado em fotografar rostos que acho interessantes; meninas com personalidades que se envolvem com a câmera”.

“Digas com quem andas que digo quem tu és”

Seria verdade que uma pessoa é mais bonita ou menos bonita dependendo da companhia? Essa foi a pergunta feita pelo psicólogo Nicholas Furl da Royal Holloway, Universidade de Londres. Em seu estudo, denominado o Experimento da Atração, o pesquisador selecionou 40 estudantes entre 18-23 anos, que avaliaram fotos coloridas de faces de pessoas com expressão “neutra”.

Na 1ª fase da pesquisa, as fotos foram apresentadas aos alunos individualmente. Todos deveriam apontar pessoas atraentes e pessoas que consideravam não atraentes.

Após a primeira etapa, 10 fotos de homens e 10 fotos de mulheres considerados menos atraentes foram selecionados e classificados como distratores – pessoas menos atraentes.

Em uma 2ª fase, as fotografias foram apresentadas novamente aos alunos, mas, dessa vez as fotos reuniram três imagens de pessoas lado a lado, ou seja, em trio, da qual faziam parte também os distratores. O resultado foi surpreendente.

Os resultados do Experimento da Atração mostrou que os participantes tendiam a achar uma pessoa mais atraente e outra menos atraente dependendo ou não da companhia distratores. A beleza parece emergir do fato de se ter “amigos” feios reunidos em torno de si.

A beleza daquilo que é feio

Para a fotógrafa Sharon Zoetewey, especialista em paisagens urbanas do cotidiano, achar inspiração para as imagens nem sempre é algo óbvio.

A beleza está escondida na humildade e talvez em coisas feias e a ideia do que fica na mente de quem vê talvez não precise ser de algo belo, no final.

As coisas mais interessantes e divertidas da vida, geralmente, são as coisas imperfeitas. Dessa forma ficamos mais conectados com a realidade em não a um ideal de perfeição.

E como lidar com clientes que se acham “feios”???

O fotógrafo Jonathan Lyons dá a dica:

Somos fotógrafos e não terapeutas. Mas isso não quer dizer que não podemos influenciar a opinião dos clientes com base no que sabemos e em nossa experiência profissional.

Antes de mostrar o trabalho a um cliente ou modelo que se acha feio, deixe a pessoa saber que você gostou do resultado e que você acha que a imagem ficou bonita e corrobora com o objetivo publicitário do projeto.

Se o cliente se prepara para a experiência de visualização com uma expectativa positiva, é menos provável que coloque ênfase em falhas ou defeitos de si e do projeto.

Por outro lado, se você – fotógrafo – vem para a sessão de visualização de fotos com hesitação, imaginando se a imagem ficou boa o suficiente, se o cliente irá gostar dela, ou se você será pago pelo serviço… Esse tipo de incerteza pode fazer o cliente se sentir desconfortável e criar um ambiente onde é mais fácil para ele rejeitar o seu trabalho.

Veja agora alguns truques de fotógrafos experiências para fotografar aquele modelo ou pessoa que não “bate” exatamente com o seu padrão de beleza.

Dicas para fotografar pessoas “feias”

  • Foque a sua atenção nos detalhes: ou seja, olhe mais de perto. O que a pessoa que está na sua frente tem de bonito? Os olhos, a boca. Talvez seja o jeito de andar. Ao destacar detalhes e o que é bonito, você vai automaticamente esconder o que não acha atrativo no modelo. Esse é o caminho certo para criar imagens bonitas de pessoas, segundo o fotógrafo Carlo Nicora.
  • Luz: imagens comuns podem ser transformadas pelo poder da luz. Observe o entorno, circule e veja se há feixes de luz entrando ou se há luz difusa para adicionar um clima. Lembre-se de que, se você está fotografando ao meio-dia com um sol forte e direto, é um bom momento para ir para as áreas sombreadas.
  • Use o contraste: aqui não estamos apenas nos referindo ao contraste de tons, mas qualquer todo tipo de contraste é um truque mágico para fotos. Contraste de cores, contraste de texturas.
  • Simbolismo: não subestime o poder do simbolismo. Você intuitivamente sabe que existem temas inerentes à solidão, isolamento ou negligência em uma imagem forte de algo feio.
  • Distância: evite a “síndrome do nariz grande”. Ao contrário, afaste-se e use planos em perspectiva.
  • Ângulo: não é apenas a distância que você precisa ter em mente. A maioria das pessoas tem um “lado bom” em termos de ser fotografada.
  • Expressão facial: lembre-se do olhar enigmático da Mona Lisa e de seu “sorriso” misterioso. Abrace expressões naturais! As melhores fotografias são aquelas que refletem uma expressão natural.

La joconde

  • Postura: às vezes é preciso esquecer o rosto e pensar na postura e no cuidado em posicionar o resto do corpo para a foto. Apesar do trabalho que dá, idealmente, queremos uma postura mais natural, relaxada, que seja autêntica e lisonjeira. Fácil realmente…

Ao documentar apenas os momentos ideais e perfeitos da vida, você perde toda a história! “Enjoy the path…”, pode ser uma frase interessante aqui!

Dessa forma, da próxima vez que você estiver filmando um casamento ou a festa de aniversário de uma criança, você estará mais bem preparado para capturar os momentos imperfeitos e não planejados. Essas fotos serão as serão as mais comentadas e delas os clientes se lembraram por muitos anos.

Tradução e Composição: Cacau Freire
Content producer at: http://www.photovideobank.com

References:
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